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“A quart of ale is a dish for a king…”

(Um pouco de cerveja é um prato para um rei)

from Winter’s Tale- William Shakespeare


Muito se lê, se ouve, se brada a respeito de um assunto que não esgota temas para tanta discussão. Até hoje condenado e vangloriado nas menores doses, o álcool é  um heroi/vilão. Talvez na poesia, música, política, cultura, religião e no dia-a-dia o embate ainda esteja quente e demore boas rodadas para chegar a uma conclusão. Garanto que temos um veredicto na MEDICINA.  

Admiro na minha carreira o fato de testarmos as ideias, com o álcool não foi diferente. É fato que a Doença Coronariana Aguda (popularmente conhecida como infato, ou infarte ou DCA) associada ao Acidente Vascular Encefálico (AVE, AVC ou também conhecido como derrame), são as doenças que mais matam no planeta. Uma imagem fala mais que mil palavras, veja o gráfico da World Health Organization (WHO):

Gráfico 1: As TOP 10 doenças que mais mataram no mundo em 2012. Repare: somando as duas primeiras causas elas represtam quase 50% do total de mortes do mundo e ambas tem o mesmo fator causal: ATEROSCLEROSE

Neste ponto, surge na sua cabeça aquele sinal de interrogação misturado com “nossa eu tenho um conhecido com essa parada”. Em resumo prático: aterosclerosose pode ser entendida como entupimento (oclusão) de artérias e então levar à MORTE ou sequela. O fato é que este entupimento é principal causa de morte no mundo. Daí os cientistas pensaram: “o que mais provoca, ou, o que menos provoca isso, pra gente relatar e orientar?”

Bom, senhores, surgiram mais de 5000 pesquisas pra determinar os Fatores de Risco para desenvolver a atereosclerose. E uma destas pesquisas algo chamou muita atenção: O PARADOXO FRANCÊS.

O fato é que os “filhos da mãe” são muito bons em fazer perfumes, roupas, pães e vinhos. E o que você faz muito bem, você consome, e em um dos estudos médicos se perguntaram: POR QUE, ENTRE TODOS DO MUNDO, OS FRANCESES TEM MENOS INFARTO ?

Será o perfume ? Será o pão ?

E o vinho veio à tona!

Neste post quero lhe dar EVIDÊNCIAS, ou seja, o que é ou não verdade. Vendo este fato as pesquisas foram atrás da pergunta: SE O ÁLCOOL PROTEGE, QUAL A QUANTIDADE BENÉFICA? 

Mas como encontrar a resposta para essa pergunta?

Vamos pegar uma galera e não dar nada, pra outra a gente dá meia caixa, e pra outra eles enfiam o pé, e vamos analisar depois. E basicamente foi isso: o pesquisador Mukamal e colaboradores em 2003, acompanharam, mais de 38 mil homens por 12 anos (sim, isso tudo mesmo – você entendeu bem) e verificaram que o consumo MODERADO de álcool (3-7 vezes por semana) estava associado a uma taxa menor de infarto.

MAS QUANTO DE ÁLCOOL PODE BEBER?

VOCÊ PODE BEBER DE 12 A 24 gr DE ÁLCOOL POR DIA!

“Sem enrolação, Dr. Eu quero beber. Por favor, traduza em números que eu entenda!”

Ok, ok. Isso significa 2 latas de cerveja (350ml) = 2 doses de destilado ~50% (30ml) = 2 taças de vinho (90ml) por dia. 

Esses valores são pra você, homem. Para as mulheres mudam, praticamente metade.

 

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E QUAL BEBIDA PODE?

Senhores, estamos conversando sobre álcool – no sabor e continente que for – cerveja, vinho, whisky, vodka. Mas aqui faço um manifesto maior à cerveja: a bebida mais consumida no mundo e no Brasil apresenta qualidades, que a tornam o nosso “vinho”. Em um país ultra-tropical, a cerveja cabe como uma luva e ainda barata, acessível e com um teor alcoólico menor.

Todas as pesquisas se respaldaram na cerveja pilsen, com uma média de 3,5-4,0%  de teor alcoólico. Veja bem, a cerveja possui uma nutrição peculiar dentre eles alguns chamam muita atenção:

  • Antioxidantes: que colaboram na manutenção saudável das artérias e todo organismo, a cerveja possui uma potencial antioxidante semelhante ao do vinho branco, aumentando em 17% a capacidade antioxidante do plasma sanguíneo. E tal efeito não foi observado em estudos que compararam com cerveja sem álcool.
  • Polifenóis: possuem diferentes ações no organismo, como ação antioxidante, anticancerigena e anti-inflamatória, que em conjunto apresentam efeitos sinérgicos.
  • Complexo B: destaque para niacina, responsáveis por colaborar na queima de gorduras e carboidratos, além de colaborar para reparos no DNA.
  • Magnésio e Potássio: o magnésio tem uma função especial no coração já que este colabora na fisiologia da contração muscular cardíaca, e o potássio por si só é um mineral altamente vital ao ser humano, sem ele (ou seu excesso) as funções vitais se comprometem a tal ponto que pode levar-nos a morte.

Estou aqui escrevendo na posição do amigo de happy-hour, ou seja, brindemos aquilo que queremos desde quarta-feira! Entretanto, minha porção médica diz um porém, e sem dúvida aqui se traduz a parte mais importante da nossa consulta/conversa de hoje.

Cuidado com o raciocínio:

“700 ml de cerveja por dia ( 2 latas de cerveja), então posso beber aproximadamente 5 litros de cerveja por semana.”

 

Senhores, o pagamento desta conta É SEMPRE A PRESTAÇÃO ! NUNCA À VISTA.

 

Não é porque não bebeu a semana toda que você tem um saldo enorme no fim de semana pra usar. A parcimônia, a moderação para organismo é a chave, e aqui não é diferente, o excesso de álcool, mesmo que apenas em dois ou 3 dias da semana, pode ser lesivo não apenas ao próprio coração, mas também a outros órgãos, como cérebro, fígado e pâncreas.

E tirando algumas situações que o consumo de álcool é contraindicado, como em indivíduos que fazem uso de antidepressivos e/ou ansiolíticos, portadores de gota, de doença celíaca, os doentes hepáticos, os diabéticos e  as mulheres gestantes, a associação dessas pequenas doses diárias de álcool (1 dose para mulheres e 2 para homens), boa alimentação, prática de exercícios físico e abandono do tabagismo certamente vem ao encontro do seu coração e uma vida saudável, e isso caros leitores, eu posso, seus familiares podem, seus amigos podem…

 

… VOCÊ PODE

coração e alcool

 

REFERÊNCIAS

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  3. RENAUD S, DE LOGERIL M. Wine, alcohol, pltelets, and the french paradox for coronary heart disease. Lancet. 1992; 339:1523-1526.
  4. SIRKSMA A, VAN DER GAACS MS, KLUFT C, HENDRIKS HFJ. Moderate alcohol consuption reduce plasma C-reactive protein and fibrinogen levels; a randomized, diet-controlled intervention study. European Journal of Clinical Nutrition. 2002;348:109-118.
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  12. VILAHUR G, CASANI L, GUERRA JM, BADIMON L. Intake of fermented beverages protect against acute myocardial injury: target organ cardiac effects and vasculoprotective effects. Basic Res Cardiol. 2012 Sep;107(5):291
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